segunda-feira, 7 de maio de 2012

No dia seguinte

Usava uma camisola de seda azul, sentada numa espreguiçadeira na sacada de seu apartamento apreciava a noite viva na cidade acompanhada de uma taça de vinho branco. Tivera um dia difícil. Não queria pensar na agenda do dia seguinte, mas pensava e bebia, pensava e bebia. Até que adormeceu. Acordou com frio e uma leve dor de cabeça, levantou-se e percebeu que havia algo errado em seu apartamento, não conseguia identificar, mas algo estava fora do lugar. Olhou no relógio, se não se apressasse chegaria atrasada ao trabalho, tomou banho e saiu, o metrô estava lotado, sentia-se cansada logo pela manhã, como se seu dia estivesse para terminar, como que por "osmose" deixou a composição. Quando chegou à rua, que era seu destino, surpreendeu-se, o prédio onde trabalhava havia desaparecido, andou a rua de ponta a ponta, como se o prédio pudesse ter mudado de lugar, estava desesperada, pensava no atraso, nos compromissos, no encontro com Augusto da contabilidade, chegou a pensar que talvez estivesse enganada já que nas grandes cidades as ruas costumam ser muito parecidas, olhou uma placa, era mesmo aquela, viu um senhor de barba longa e cabelos grisalhos do lado oposto ao que estava, atravessou para perguntar a ele se conhecia o edifício Girassol. Acordou com frio e uma leve dor de cabeça, levantou-se e percebeu que seu gato havia derrubado sua imagem de São Francisco de Assis. Telefonou para o escritório avisando que não iria trabalhar.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Não-dito

Para trás de uma vírgula
solitária
ficou uma não-palavra
Viva
Morta
Sonâmbula
Uma não-palavra
que significa
mais que a palavra
propriamente dita

Eis que a palavra da não-dita
Fez-se a luz
Eis que do significado procurado
Fez-se a cruz

sexta-feira, 16 de março de 2012

Infinitivo

É um viver cansado
É um falar sem voz
É um andar capenga
É um sofrer veloz
É um ter medo agora
É um não crer em si
É um baixar de cabeça
É um não sorrir

Nessa angústia solta no tempo
Uma lágrima corre na face (ardendo)
Nesse estado de não sentir
Não me sinto em pé
Não me sinto cair

segunda-feira, 12 de março de 2012

Arranha-céu

Deslocamento
Desconhecimento
Refutação

Medo
Angústia
Solidão

Siga

Negue
Não
entregue
Encolha
mão

Em
si
outro
não
existe
Em ti
sentimento
persiste

Desconfiança

O outro não sou EU

E quem SOU?

Alma máquina
Espírito engrenagem
Sentimento movido a óleo
Matéria carenagem

E tudo está no hoje
Quem manda é a demanda
O progresso é a febre do momento

E o poeta no arranha-céu percebe
Que o tempo é de discórdia
Que se cultua o mito do isolamento
Que nascem as famílias em cabanas de concreto
E que discutem a privatização do vento.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A poesia está nas palavras

Não há poesia em mim
A poesia está nas palavras
Que juntas ou amontoadas
Transmitem a mensagem
Que o peito sente
E a boca cala

Em mim estão os medos,
As aflições, as urgências
Em mim está o amor,o calor
A percepção
É no meu peito que pulsa o coração


A poesia transforma o sentimento,
Traduz o pensamento, codifica o óbvio
A poesia ultrapassa o momento
Eterniza a palavra
Tornando-a imune a força do tempo.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Coração surrado

Em meu coração
Pulsa um amor
Reprimido,
Amor bandido,
Amor que insiste
Em ser sentido.

Escrever poesia sem sentimento?
Escrever poesia
Consentimento
Daquilo que cresce comigo,
Um sentimento
Que nasceu cansado,
E lateja nas fibras
De um velho coração
Surrado
Magoado de viver.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Corda bamba

Vestida de preto
Ela ensaia um samba
Ousada e valente
Quer dançar na corda bamba
Sob seus pés um precipício
E um tenebroso mar de lembranças
Mas não se importa
Toca a dança
Para um lado e para o outro
A fina corda balança.